Este livro aborda certos desenvolvimentos da teoria e da clínica psicanalítica, absolutamente interligados. Por um lado, temos as transformações de uma teorização que, partindo do estudo do sonho, viu-se conduzida ao problema do trauma que interrompe a função onírica; os pensamentos de Freud, Ferenczi, Balint e Winnicott são aqui tomados como referenciais principais. Por outro, temos algumas das formas psicopatológicas não clássicas que evidenciam de modo particular estas transformações: os transtornos psicossomáticos e as adicções.
Nos distúrbios psicossomáticos, a investigação da vida onírica é da maior importância. O sonho, quando surge, apresenta frequentemente pouca potencialidade associativa, pouco alcance em termos de referir-se a tempos e espaços diversos que se entretecem e se comunicam; em suma, pouca elaboração onírica. Nas manifestações corporais de certos indivíduos não há criação, expressividade ou comunicação – ao contrário do corpo erógeno da histeria, este sim verdadeiro palco da encenação somática de um sonho -; daí a distinção fundamental, ainda que difícil, entre somatização e conversão. Nas adicções, o que desmorona é o trabalho de simbolização: o ato que é gesto, a palavra que porta afeto e sentido. Nelas se verifica uma falha da função transicional do objeto: uma certa magia do humano através da qual o objeto pode ser “ponte”, “cordão”, meio de ligação e de separação entre Eu e outro, meio de criação de si e de percepção do mundo, instrumento através do qual o Eu pode transitar pelo mundo das coisas e estas últimas podem, potencialmente, constituir material para os sonhos.
A proposição do colapso do sonhar é, então, introduzida para descrever tais situações: nelas, a estrutura psíquica do indivíduo ou sua organização do Eu apresentam uma falha, uma quebra, uma fratura ou uma fenda que o colocam em um campo clínico diferente do da psiconeurose; este colapso se refere a uma clínica da dissociação, em contraste com a clínica do recalcamento.