Este livro aborda alguns avanços na compreensão psicanalítica do sonhar e do dormir, em conexão com aquilo que se passa no tratamento psicanalítico. Os temas são discutidos a partir de relatos de situações clínicas, de exemplos de ficção literária e poesia e de sonhos do próprio autor, revisitando o repertório conceitual da psicanálise freudiana e pós-freudiana. Em primeiro lugar, destaca-se a dimensão estética do sonhar. Ao adentrar no sono-sonho, o sujeito mergulha em uma viagem ao informe: por um processo regressivo, as “formas” habituais se diluem, e podem então se reconfigurar segundo uma disposição renovada. O viajante tem, assim, a oportunidade de um reabastecimento de sua potencialidade criativa, e o “espaço do sonho” se torna um espaço potencial e “transicional” onde se exercita a mágica ilusionista do humano. O sonhar é, portanto, afim ao criar. Em segundo lugar sublinha-se, no sonhar, a referência ao outro humano. No sono-sonho, o outro se faz presente como “resto diurno”, como ambiente humano de sustentação ou mesmo como destinatário do sonho: é pela presença de “objetos de sonho” que um sono se torna pleno. O livro ressalta, ainda, a dimensão de projeto futuro do sonhar: ao conceber um sonho, o sujeito cria um projeto, uma espécie de visão antecipatória do futuro construída com os fios do próprio desejo. Afinal, um sonho só “vinga” se estiver preservada a capacidade humana de “esperar com esperança”. Ora, o tratamento psicanalítico convida o sujeito justamente para uma viagem ao informe, na qual almejamos um reencontro com a fonte da potencialidade criativa por vezes perdida. Em alguns casos nos deparamos, porém, com um “colapso do sonhar”: neles predomina uma espécie de deserto psíquico, e então se faz necessário instaurar um espaço para sonhar durante o processo da análise. Trata-se, verdadeiramente, de construir um “sono pleno” e, para isto, é imprescindível contarmos com o “suposto sonhar” do próprio psicanalista.